Cr nicas
AS ESPATÓDIAS

As espatódias não são árvores comuns em São Paulo, tanto que pouca gente sabe o nome delas. E menos ainda acha que um nome complicado como este pode ser nome de árvore.

As pessoas dão com elas, floridas nesta época do ano, se impressionam com a beleza das flores intensamente laranjas, abertas em pequenos cachos, mas não as identificam. Não sabem que planta é aquela.

E eu seria como a maioria, não fosse ter crescido na fazenda da família, em Louveira. Lá, não me perguntem quem as plantou, as espatódias eram comuns. Desde menino eu me habituei a vê-las, com e sem flores, dependendo da época do ano.

Mas para nós, meus primos e eu, o grande momento, em relação às espatódias, sempre foi um pouco antes da florada abrir.

Fechadas, as flores da espatódia guardam água dentro. E isso as transformava em armas para gostosas guerras, uma vez que espremidas a água voa longe, atingindo o alvo a alguns metros de distância.

Pegávamos cachos inteiros e saíamos uns atrás dos outros, divididos em bandos ou cada um por si, atirando com nossas armas precárias, numa divertida batalha a base de mija-mijas carregados.

Mija-mija era o nome que, por razões óbvias, a família dava as flores das espatódias, e por tabela, para a árvore, também.

É por isso que vê-las floridas, esparsamente espalhadas pela cidade, para mim é sempre um prazer. Ou, mais que um prazer, uma viagem no tempo, para uma época em que a vida pegava leve, e até as guerras se resumiam a um combate com flores esguichando água. O duro é que um dia a gente cresce e os mija-mijas se transformam em espatódias.

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