Cr nicas
O TIETÊ DOMINGO DE MANHÃ

É triste dirigir pela Marginal do Tietê domingo de manhã.

O trânsito anda rápido, quase não há outros veículos, as pistas são suas e, mesmo assim, é triste dirigir por elas, vendo o rio no meio.

O Tietê está intimamente ligado a história de São Paulo. Desde o mais remoto princípio, o rio é parte viva na história da ocupação do planalto.

Com seu curso correndo ao contrário, em direção ao interior em vez de descer a serra, em busca do mar, o Tietê serviu de caminho para o padre Manoel da Nóbrega explorar o rumo do Peabiru e para João Ramalho descer índios Guaranis numa útil aliança com o sogro, Tibiriçá.

Serviu de marco, de rota para o Guairá, de estrada para a conquista do Mato Grosso, de baliza para o café.

Foi praia dos paulistanos. Raia de remo, de vela, local de passeios e pescarias, programa de final de semana, limite da cidade, razão de ser da Ponte das Bandeiras.

Foi de tudo um pouco, para milhares de pessoas que de uma forma ou de outra sentiram sua existência de maneira concreta, como amigo ou adversário, nas enchentes de verão.

Hoje o Tietê dá pena. Ainda que passando por um processo de recuperação importante, falta muito para deixar de ser um esgoto a céu aberto, atulhado de lixo de todo tipo, a começar pelas garrafas pets.

Ver o líquido que se arrasta denso, coberto de sujeiras e dejetos, faz pensar se aquilo pode ser chamado de água, ou se é uma mistura nascida no inferno, colocada na calha do rio para causar o máximo de dano.

Triste Tietê que foi alma da cidade e marco do progresso. Hoje, definha, sem ar, abafado, feio e sujo, entre duas avenidas feias e sujas.

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