Cr nicas
OS PÁSSAROS

Não sei se é porque o chão está pintado de roxo e amarelo, nem se é porque o céu está azul e as folhas mostram verdes densos, dos mais variados tons.

Não sei se é porque a vida pega leve quando o calor dá as caras, ou se o horário de verão tem alguma coisa com isso.

Pode ser, porque tudo pode ser nesta vida cada vez mais inesperada.

Ninguém sabe de nada com certeza e quando sabe, antes de falar pede pra televisão não mostrar a cara e distorcer a voz.

Medos, medos que crescem na rotina da cidade grande cada vez mais violenta, mais insensível, mais cheia de traumas.

Se algumas calçadas são pintadas com as flores que caem dos jacarandás e das tipuanas, outras sentem o peso do sangue manchando de vermelho o cinza sujo de seu cimento.

Nada que não se multiplique nos quatro cantos da terra, em atentados terroristas, assaltos, sequestros, assassinatos e brigas de trânsito.

Mas não é esta a razão de ser desta crônica. O que me chama a atenção é a quantidade de pássaros que este ano tomou de assalto os espaços paulistanos.

São Paulo transformou-se num enorme aviário, com periquitos desafiando os sabiás para comer os coquinhos das palmeiras. Do outro lado, bem-te-vis, voam aos pares, enfrentando gaviões. Rolinhas são as donas dos quintais. Pássaros pretos trazem de volta a poesia dos tico-ticos e até os pardais que andavam sumidos resolveram dar o ar da graça. Quem ganha somos todos nós enfeitiçados pela cantoria.

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