Cr nicas
APAGÃO

De repente, a cidade ficou escura. Gente que estava nas ruas descreve o apagão como cena de ficção científica. Sem aviso a cidade foi apagando. Um lado, outro, outro, até que uma escuridão diferente tomou conta da noite.

Com ela veio outro tipo de silêncio. Um silêncio denso, pegajoso e assustador tomou conta da noite. O barulho tradicional do silêncio paulistano foi encoberto pelo novo silêncio.

O silêncio tem barulhos típicos. O de São Paulo passa pelo ronco constante de milhares de motores funcionando ao mesmo tempo.

O silêncio do apagão cresceu e se apossou da noite, depois, entrou pelas residências, se impôs, enquanto a luz, primeiro ficava como se tivesse caído uma fase, para em seguida acabar de vez.

Dentro de casa, primeiro foi o espanto. E a constatação de que a operadora local, como acontece sistematicamente, mais uma vez prestava um serviço de má qualidade.

Então, alguém falou com outro alguém pelo celular. O outro alguém ouvia rádio e sabia que toda a cidade estava no escuro.

E as notícias do resto do país começaram a chegar. 12 estados e o Distrito Federal estavam sem energia.

A coisa era mais grave. Passava por Itaipu. O ano de 1999 retornou, saído da gaveta das lembranças. O apagão esquecido readquiriu vida, recriado em novo fantasma. Será que?

No quarto escuro e quente as alternativas eram apenas duas. Sentir calor ou ser devorado vivo pelos pernilongos que já tomaram a cidade.

Toda escolha era válida. Cobri-se com o lençol e retirar o lençol, sempre sob a ameaça do assobio fino do mosquito mais próximo.

Voltar