Cr nicas
O ANIVERSÁRIO DO MEU PAI

Amanhã meu pai estaria completando 88 anos de idade. Mas ele não chegou aí. Morreu três anos e meio atrás, depois de uma vida rica em aventuras, felicidade e muita satisfação em tudo que fez.

Não é todo dia que penso nele. A saudade é um sentimento peculiar, que abre suas comportas quando quer e não quando queremos.

Tanto faz fazer força ou não. A saudade vem quando menos se espera, trazida numa brisa com cheiro de terra molhada, numa música, numa palavra, num gesto, numa sombra.

Chega e se instala, dona do pedaço. Naquele momento, nada além dela consegue nos afetar. É o seu momento e ele não tempo certo para durar.

Pode ser um átimo, alguns minutos, um dia inteiro. Sempre infinito.

Certa vez, uma lua cheia vista da janela do meu apartamento no Guarujá desencadeou um processo de lembranças que me fez telefonar para vários amigos e dizer que estava com saudade.

Meu pai foi um homem especial. Inteligente, culto, teimoso e com um senso de humor todo próprio, tinha um jeito único de encarar o mundo, que o podia fazer muito amado ou quase odiado.

Em nossa vida em comum, a partir de meus 15 anos, ele foi muito mais meu amigo que meu pai. O resultado foi um longo diálogo que se estendeu por mais de 50 anos, comigo aproveitando e aprendendo, na medida do possível, o que ele me transmitia.

Conheço pessoas que culpam os pais por isso ou por aquilo. Não sei se estão certas. Eu só posso agradecer ao meu tudo que ele me deu. A vida, a educação e o meu jeito de ver o mundo. Se sou o que sou, muito disso é resultado dele ter sido quem foi.

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