Cr nicas
OS SABIÁS CONTINUAM AÍ

Os ipês foram embora, as azaléias perderam suas flores, as ameixeiras e os pés de amora estão carregados de frutos, as jabuticabas se preparam para descarregar a safra e os sabiás continuam firmes, cantando de madrugada, na serenata infernal com a qual tentam arrumar fêmeas para preservar a espécie.

Quer dizer, dizem que é para preservar a espécie. Eu não tenho tanta certeza. Afinal, quando boêmios cantam feito eles, noite a fora, é porque querem mais que preservar a espécie. Quem sabe, seguindo a boa tendência dos músicos norte-americanos, queiram de verdade curtir a vida, muito sexo e rock-and-roll.

Tem gente que vai dizer que estou viajando, que passarinho, seguindo os ensinamentos de Darwin, só quer preservar a espécie.

Eu duvido, porque duvido que Darwin tivesse uma visão tão estreita dos prazeres da vida.

O que eu sei é que mal dá três horas da manhã, eles começam a cantoria. Tanto faz se ainda é noite escura e que a iluminação pública é deficiente e não serve de desculpa para uma eventual confusão com o começo da madrugada.

Eles sabem que é noite escura, mas é assim que o mundo moderno corre. Segue em frente cada vez mais rápido como se tudo girasse no ritmo da internet de banda larga, multiplicando várias vezes a velocidade do som.

Tanto faz. Cantam. Cantam como os heróis desesperados que precisam salvar a mãe da fogueira nas operas italianas. O negócio é soltar a garganta. Pode mais que canta mais. Então, os sabiás paulistanos não discutem. Cantam. Cantam que mais cantam. O resto é poesia.

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